Já deve ter acontecido com você.
— Não está se lembrando de mim?
Você não está se lembrando dele. Procura, freneticamente, em todas
as fichas armazenadas na memória o rosto dele e o nome
correspondente, e não encontra. E não há tempo para procurar no
arquivo desativado. Ele esta ali, na sua frente, sorrindo, os olhos
iluminados, antecipando sua resposta. Lembra ou não lembra?
Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.
Um, curto, grosso e sincero.
— Não.
Você não está se lembrando dele e não tem por que esconder isso. O
"Não" seco pode até insinuar uma reprimenda à pergunta. Não se faz
uma pergunta assim, potencialmente embaraçosa, a ninguém, meu caro.
Pelo menos entre pessoas educadas. Você deveria ter vergonha. Passe
bem. Não me lembro de você e mesmo que lembrasse não diria. Passe
bem. Outro caminho, menos honesto mas igualmente razoável, é o da
dissimulação.
— Não me diga. Você é o... o...
"Não me diga", no caso, quer dizer "Me diga, me diga". Você conta
com a piedade dele e sabe que cedo ou tarde ele se identificará,
para acabar com sua agonia. Ou você pode dizer algo como:
— Desculpe, deve ser a velhice, mas...
Este também é um apelo à piedade. Significa "não tortura um pobre
desmemoriado, diga logo quem você é!". É uma maneira simpática de
você dizer que não tem a menor idéia de quem ele é, mas que isso não
se deve a insignificância dele e sim a uma deficiência de neurônios
sua.
E há um terceiro caminho. O menos racional e recomendável. O que
leva à tragédia e à ruína. E o que, naturalmente, você escolhe.
— Claro que estou me lembrando de você!
Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas estatísticas de que o
desejo de não magoar os outros está na origem da maioria dos
desastres sociais, mas você não quer que ele pense que passou pela
sua vida sem deixar um vestígio sequer. E, mesmo, depois de dizer a
frase não há como recuar. Você pulou no abismo. Seja o que Deus
quiser. Você ainda arremata:
— Há quanto tempo!
Agora tudo dependerá da reação dele. Se for um calhorda, ele o
desafiará.
— Então me diga quem sou.
Neste caso você não tem outra saída senão simular um ataque cardíaco
e esperar, e falsamente desacordado, que a ambulância venha
salvá-lo. Mas ele pode ser misericordioso e dizer apenas:
— Pois é.
Ou:
— Bota tempo nisso.
Você ganhou tempo para pesquisar melhor a memória. Quem será esse
cara meu Deus? Enquanto resgata caixotes com fichas antigas no meio
da poeira e das teias de aranha do fundo do cérebro, o mantém à
distância com frases neutras como jabs verbais.
— Como cê tem passado?
— Bem, bem.
— Parece mentira.
— Puxa.
(Um colega da escola. Do serviço militar. Será um parente? Quem é
esse cara, meu Deus?)
Ele esta falando:
—Pensei que você não fosse me reconhecer...
—O que é isso?!
—Não, porque a gente às vezes se decepciona com as pessoas.
—E eu ia esquecer de você? Logo você?
—As pessoas mudam. Sei lá.
— Que idéia. (é o Ademar! Não, o Ademar já morreu. Você foi ao
enterro dele. O... o... como era o nome dele? Tinha uma perna
mecânica. Rezende! Mas como saber se ele tem uma perna mecânica?
Você pode chutá-lo amigavelmente. E se chutar a perna boa? Chuta as
duas. "Que bom encontrar você!" e paf, chuta uma perna. "Que
saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é esse cara?)
— É incrível como a gente perde contato.
— É mesmo.
Uma tentativa. É um lance arriscado, mas nesses momentos deve-se ser
audacioso.
— Cê tem visto alguém da velha turma?
— Só o Pontes.
— Velho Pontes! (Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo menos agora
tem um nome com o qual trabalhar. Uma segunda ficha para localizar
no sótão. Pontes, Pontes...)
— Lembra do Croarê?
— Claro!
— Esse eu também encontro, às vezes, no tiro ao alvo.
— Velho Croarê. (Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece nenhum
Croarê e nunca fez tiro ao alvo. É inútil. As pistas não estão
ajudando. Você decide esquecer toda cautela e partir para um lance
decisivo. Um lance de desespero. O último, antes de apelar para o
enfarte.)
— Rezende...
— Quem?
Não é ele. Pelo menos isto esta esclarecido.
— Não tinha um Rezende na turma?
— Não me lembro.
— Devo esta confundindo.
Silêncio. Você sente que esta prestes a ser desmascarado.
Ele fala:
— Sabe que a Ritinha casou?
— Não!
— Casou.
— Com quem?
— Acho que você não conheceu. O Bituca. (Você abandonou todos os
escrúpulos. Ao diabo com a cautela. Já que o vexame é inevitável,
que ele seja total, arrasador . Você esta tomado por uma espécie de
euforia terminal. De delírio do abismo. Como que não conhece o
Bituca?)
— Claro que conheci! Velho Bituca...
— Pois casaram.
É a sua chance. É a saída. Você passou ao ataque.
— E não avisou nada?
— Bem...
— Não. Espera um pouquinho. Todas essas acontecendo, a Ritinha
casando com o Bituca, O Croarê dando tiro, e ninguém me avisa nada?
— É que a gente perdeu contato e...
— Mas meu nome tá na lista meu querido. Era só dar um telefonema.
Mandar um convite.
— É...
— E você acha que eu ainda não vou reconhecer você. Vocês é que se
esqueceram de mim.
— Desculpe, Edgar. É que...
— Não desculpo não. Você tem razão. As pessoas mudam. ( Edgar. Ele
chamou você de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele confundiu você
com outro. Ele também não tem a mínima idéia de quem você é. O
melhor é acabar logo com isso. Aproveitar que ele esta na defensiva.
Olhar o relógio e fazer cara de "Já?!".)
— Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?
— Certo, Edgar. E desculpe, hein?
— O que é isso? Precisamos nos ver mais seguido.
— Isso.
— Reunir a velha turma.
— Certo.
— E olha, quando falar com a Ritinha e o Manuca...
— Bituca.
— E o Bituca, diz que eu mandei um beijo. Tchau, hein?
— Tchau, Edgar!
Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito, ele dizer "Grande
Edgar". Mas jura que é a última vez que fará isso. Na próxima vez
que alguém lhe perguntar "Você está me reconhecendo?" não dirá nem
não. Sairá correndo.
Luís Fernando Veríssimo
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